quarta-feira, 9 de maio de 2018

ỢBÀTÁLÁ, IFÁ E OS DEUSES DA CRIAÇÃO


Efun

Muito é dito sobre esse òrìşà em especial, que os Yorùbá identificam como Ợbàtálá, Òrìșàlá, Òrìşà Aláşó fúnfún, o òrìşà com roupas brancas, ou, Obatarisa. O grande rei, Ọba nla. Porém, é através do Oriki moreso, mais do que em qualquer outra forma escrita é que começamos a entender o òrìşà.
Os antigos diziam, Òrìşà Olufon – outrora conhecido como Daodu, o primogênito do rei – foi nascido primeiro de Ợbàtálá.
Todos os òrìşà têm seu grupo separado de adoradores. Cada um tem, também, uma casa separada para adoração. Aqueles que adoram a Ợbàtálá usam contas brancas (şèşè efun) e roupas e braceletes brancos. Eles usam o cajado (opa Òsòòrò) e leques (oje) feitos de metal niquelado semelhante a uma liga de estanho. Eles sempre cozinham com manteiga de karité (banha de ori), ou com olho de semente de melão (egusi), em vez de óleo de palma utilizado por muitas outras pessoas. Seu prato tradicional é conhecido como obe ate (guisado branco). O sacerdote oferece a Ợbàtálá a noz de cola branca (obi ifin), em vez da noz de cola vermelha tradicional (obi abata), que é dado aos outros òrìşà. Ợbàtálá bebe cerveja de milho (sekete) em vez de vinho de palma.
Caramujos (erinlako) e galinhas brancas são os sacrifícios favoritos de Ợbàtálá e dos outros òrìşà que são seus filhos, tais como, Ogiyan, Òrìşà Irowu, Orisa Oluofin, Orisa Pòpò …etc.
Os adoradores de Ợbàtálá são sempre limpos e eretos. Eles podem usar roupas de várias cores às vezes, mas para eles, o branco é mais aceitável.
No templo de Ợbàtálá há sempre um pote (awe orisa), que contém água e objetos sagrados (irin òrìşà). A água é mantida limpa e pura (omi otun). Esta água deve ser obtida pelo sacerdote de Ợbàtálá bem cedo pela manhã, que o faz em completo silencio, tanto na ida quanto na volta ao templo (omi odi). O sino ou ajija deve ser tocado para limpar todo o mal que ele possa encontrar pelo caminho. Essa água (omi awe) ou (agbo orisa), pode fazer com que as mulheres estéreis tenham filhos, e quando um bebê está doente, essa água é usada para a cura.
Agora vamos examinar o Oriki de Ợbàtálá antes de iniciarmos com suas aventuras. Ợbàtálá é uma divindade poderosa. Ele é o grande rei de Ìrànjé; o homem velho entre todos os òrìşà. Ele é alto e bonito:

Ele construiu sua casa próxima ao paraíso
A casa era toda pintada de branco
Ele também usava branco todos os dias
Sua cidade é conhecida como Ìrànjé
Ele é o artista de Olódùmarè
Ele foi o que moldou a cabeça nova no bebê
Tanto o preto como o branco foram criados por Ợbàtálá
E alguns batizados com seus nomes de louvor
O modo como ele segura o carneiro
Povo de Ijao
Ele não segura o leopardo de Ifọn
Os olhos do leopardo são o fogo, fogo
São o fogo
As costas do leopardo é o sol
As garras do leopardo em ambas as patas
Elas podem machucar terrivelmente a cabeça da criança
Ogidan na casa de Ijao
Arodewogun colocou a marca preta e branca em uma pessoa
Ele impetrou o medo sem uma faca
Ele é um rei que ao mesmo tempo é divindade
Aquele a quem chamamos todos os dias.
Estas poucas linhas explicam melhor, do que uma discussão, comum que tipo de òrìşà é este grande Ợbàtálá do qual estamos falando. Para assegurar a todos os seus devotos que ele pode salvá-los da mão de todos os males, leiamos –

Ele pegou o cabrito preto
Para libertar seus filhos dos males
Ele tirou o coração do cabrito
Para salvar a vida de um ser humano
Quando ela estava pior
Ele pegou caramujos para salvar a sua vida.
De acordo com a história do Odu Ifá, havia dois centros principais onde Ợbàtálá viveu durante sua existência. Um foi em Ìrànjé Ile, o outro foi em Òrìşà Oko. Ele também viveu em Ijao, bem como em Ifọn. Por isso que ele é sempre chamado de o bom rei que viveu em Ifọn.
Ele é o òrìşà associado com os aleijados e os albinos. Diz um provérbio Yorùbá, quando você vê um albino, você vê o òrìşà, porque eles estão bem juntos.
Aquele que vai para o paraíso
Sem sequer andar
Por causa dos anões, aleijados e corcundas.

A maioria dos devotos de Ợbàtálá costumar fazer divinações com búzios (éérìndílógún). Isso foi dado a Ợbàtálá por ser amigo de Òşún. Foi Òşún que aprendeu o sistema divinatório de Ọrúnmìlà, que mais tarde foi estendido para outros òrìşà. Em um Odu Ifa (Okanransode), Olódùmarè enviou para informar a todos os òrìşà na Terra, que ele os daria a sabedoria e o conhecimento do divino. Mas eles teriam que procuram por eles. Junto com quase todos os outros, Òşún, em sua longa vestimenta, recusou-se a fazer um sacrifício antes da busca. Ela estava certa de si mesma, ela estava confiante de que encontraria o conhecimento. Ọrúnmìlà foi o único òrìşà que fez o sacrifício.
Todos eles saíram em busca da tangível sabedoria. Assim que a busca prosseguia, foi Òşún, como uma mulher, quem primeiro pegou algo do chão.
Ela não reconheceu o que era. Ela colocou no bolso de sua vestimenta e ele caiu de volta no chão, porque ela não sabia que seu bolso estava rasgado.
Ọrúnmìlà que estava vindo logo atrás dela, pegou e guardou. Foi sua negligencia em fazer o sacrifício que deu a Elégbára a chance de reagir e trazer a má sorte para Òşún. Ọrúnmìlà tornou-se líder e compartilhou o conhecimento com cada um deles. Òşún recebeu sua parte de Ọrúnmìlà, e o restante recebeu sua parcela de Òşún.
Para ser Adosu ou Aworo de Ợbàtálá é necessária uma cerimônia de iniciação que dura sete dias. A parte mais interessante dessa cerimônia acontece em um rio:
Na casa de Ợbàtálá
Eu tenho roupas em casa
Envolvo-me em afọn para ir para o rio
É com o afọn que nos cobrimos para irmos para o rio à meia-noite.
A roupa/fantasia nos segue
A máscara na frente
A roupa/fantasia na retaguarda
Você não deve ter medo
É a roupa colorida que você trouxe dobrada em seu braço lá do rio
Colorida e o afọn no qual você está enrolado
O povo de Ifọn dá ela para Egungun levar para casa
Os filhos de Òrìşà não devem mais usar roupas vermelhas

Quem quer que se inicie para Ợbàtálá, não pode usar roupas coloridas por um ano. Outro aspecto importante das iniciações é o guisado (obe ate). O guisado branco sempre deve ser preparado para Ợbàtálá e para o devoto durante a cerimônia.
Foi Ợbàtálá que introduziu os dias da semana (ojo ose) para os devotos dentre vários òrìşà. O dia de semana é importante. É um dia especial onde os devotos guardam o descanso. Eles limpam o templo, fazem rezas, e depois fazem oferendas para os òrìşà. Şàngó, Ògún, Oyá, Òşún, Ifá e todos os outros têm seu dia da semana. Eles também têm dias especiais separados dedicados a eles. Alguns compartilham o mesmo dia juntos. Seguindo o dia da semana de Òrìşàala (Ose Òrìşà), está o dia de Ifá. Òşún divide esse dia com Ọrúnmìlà. O terceiro dia é de Ògún (Ose Ògún) e o quarto dia é Jakuta, o dia da semana de Şàngó. Mas no princípio, os dias da semana não tinham nomes. Foi Ọrúnmìlà que se dirigiu até Olódùmarè para obter os nomes dos dias e trazê-los para a Terra. É por isso que é dito:

É Ifá que é o dono do hoje
É Ifá que é o dono de amanhã
Ifá é o dono de todos os quatro dias criados para os òrìşà neste planeta. Em um parágrafo do Oriki de Ợbàtálá, uma das filhas de Ợbàtálá perguntou a ele,
Como podemos saber os nomes dos dias?
Òrìșàlá disse:
Pegue um dia da semana para Ooşalá
Pegue outro dia para Ògún
Separe outro para Jakuta, Şàngó
O que sobrar é para Awo, Ọrúnmìlà.
Foi Ọrúnmìlà que trouxe os nomes dos dias para a Terra, enquanto Ợbàtálá estabelecia os dias da semana.

Ojo Aje (segunda-feira) é o dia em que Aje (dinheiro), junta-se a todos os òrìşà na Terra, e é conhecido como o dia do dinheiro. Portanto, é o dia em que negócios devem ser começados, ou outros assuntos que envolvem dinheiro devem ser empreendidos.
Ojo Isegun (terça-feira) é o dia da vitória. Este é o dia em que todos os poderes maléficos foram derrotados. É um bom dia para começar tudo que leva ao bem, e o melhoramento da vida.
Ojo Rírú (quarta-feira) é o dia em que os problemas entraram no mundo. É um dia de confusão.
Ojobo (quinta-feira) é o dia em que os nomes dos dias da semana chegaram. É um dia calmo. Acredita-se que é o dia em que os ancestrais visitam seus parentes. Por esse motivo é que todos os festivais começam em Ojobo.
Ojobo Eti (sexta-feira) é o dia do adiamento. Acredita-se que qualquer coisa que uma pessoa tenha para fazer nesse dia deve ser adiado, ou não dará certo. É por esse motivo que negócios ou viagens não devem ser iniciados nesse dia.
Abameta (sábado) tem os mesmos atributos da sexta-feira.
Ojo Aikú (domingo) é o dia em que Ọrúnmìlà prometeu vida longa (aikú) ao povo na Terra. Foi dito a ele que fizesse um sacrifício, mas ele recusou-se. Ọrúnmìlà queria que todos os seus devotos tivessem vida longa e não morressem. Quando ele foi a Olódùmarè, o ser supremo, para pedir por vida longa, mas foi o mesmo Ọrúnmìlà que rebatizou esse dia como o dia do descanso (Ojo Isinmi).
Há uma história no Odu Ifá Oseolosun que conta como isso aconteceu:
Havia um mercado em Ajaaeremi que atraia tanto a òrìşà quanto seres humanos, porque os artigos lá eram baratos, e o comércio era muito ativo.
Esse mercado acontecia uma vez por ano, e muitos que tiveram a oportunidade de ir lá para barganhar ficaram ricos.
Elégbára era o guardião do portão do mercado de Ajaaeremi. Sua mãe era Imi. Uma vez que todos iam lá para barganhar, Ọrúnmìlà também tinha a intenção de ir a esse mercado. Antes de sair, ele jogou, e fez um sacrifício, e foi avisado que se aparecesse qualquer obrigação pelo caminho, ele não deveria rejeitar.
No caminho, Ọrúnmìlà encontrou Imi, mãe de Elégbára, que era velha, e estava à beira da morte. Ela suplicou a Ọrúnmìlà que fizesse o favor de cuidar dela, e finalmente acabou morrendo em suas mãos. Ele a sepultou e procedeu em executar todo o ritual do funeral para ela. No sétimo dia, o último dia da cerimônia do funeral, o mercado de Ajaaeremi já havia finalizado. O portão estava fechado. Elégbára e todas as outras pessoas estavam retornando para seus lares quando encontraram Ọrúnmìlà executando o ritual final para Imi. Elégbára ficou tão feliz, que recompensou Ọrúnmìlà com muito dinheiro, roupas, cavalos e servos. Isso tornou Ọrúnmìlà rico. Sua riqueza súbita impressionou muitas pessoas. Eles o questionavam, quando foi que se tornou rico?
E ele disse:

Desde que sepultei Imi para seu descanso
Eu comecei a ter dinheiro
Desde que sepultei Imi para seu descanso
Eu tenho paz de espírito…

E Ọrúnmìlà disse isso desde então, e ele batizou aquele dia como o dia do descanso (Ojo Isinmi), o dia em que Ọrúnmìlà sepultou Imi, a mãe de Elégbára. Foi assim que obtivemos o nome do dia Ojo Isinmi (domingo).
Se um casamento acontece em Jakuta, o dia da semana de Şàngó, o casamento não será bem-sucedido. O casal brigará, e possivelmente separará logo após. Portanto, também, um casamento no dia da semana de Ooşalá não será bom, porque a mulher ficará constantemente doente. Ela poderá ter que esperar um longo período antes de poder ter qualquer filho. O dia de Ògún também é notório por ser um dia insatisfatório para casamentos. Apenas o dia de Ifá, que também é o dia de Òşún, é bom para casamentos. O dia da semana de Ợbàtálá é para rituais funerais, de modo a trazer um fim para a calamidade da morte. O calendário diário é de suma importância para o povo Yorùbá. É por esse motivo que os Yorùbá não tomam decisões importantes sem antes consultar a Ifá e pedir ao Babalawo para observar o dia e a semana para se ter um bom começo.
Por toda a nação Yorùbá, o mais alto sacerdote de Ooşalá é conhecido como Aaje. Algumas cidades também têm o Oluwin como um alto sacerdote de Ooşalá, mas Oluwin e Aaje são do mesmo nível e suas funções são as mesmas. Existem outros títulos de importância entre aqueles que cultuam Ợbàtálá. Os que foram iniciados e treinados para cultuar são conhecidos como Iyalòrìşà e Babalórisá. Aqueles que são treinados e preparados para incorporações durante as cerimônias são Elégun. Somente o Elégun pode ser ‘montado’ pelo òrìşà. Babalórisá é o título dado a todos os adoradores masculinos; Aseri são as testemunhas; Agbegba são os carregadores de cabaça masculinos; Ìyá Nigba são as mulheres que também carregam cabaças. Abòrìşà são os homens que foram iniciados no culto a òrìşà, e que devem dar oferendas e sacrifícios a Ợbàtálá. Olori Elégun é o líder daqueles que são possuídos pelos òrìşà durante as cerimônias. Ìyá Alase é a mulher que inspeciona a comida de Ợbàtálá, e a Iyalòrìşà é a mulher que lidera todas as adoradoras femininas. Todos que tem òrìşà na cabaça são chamados de Adosu. Ele ou ela jamais devem raspar a cabeça.
Todos os devotos de Ợbàtálá devem ter cuidado especial com seu fio de contas branco, lavando-o com água de caramujo (seseefun) e não com água de folha (omi ero). Em algumas partes das terras Yorùbá é o Aaje, o alto sacerdote, que deve jogar a noz de cola e fazer sacrifícios de animais para os òrìşà quando necessário. Ợbàtálá é conhecido por ser amante da música e de tambores. Seus instrumentos são o atabaque, igbin ou àgbà, e às vezes o chocalho grande, Șẹkẹrẹ. Alguns devotos de Ợbàtálá são músicos em tempo integral e ganham seu pão cantando e tocando Șẹkẹrẹ pela cidade. Eles vivem do que ganham ao mesmo tempo em que cantam em louvor a Ợbàtálá e fazem rezas especiais que acompanham as músicas para a plateia.
Entre as esposas de Ooşalá está a famosa Yemoo. Seu templo fica próximo ao de Ợbàtálá, e seu símbolo é o cajado de ferro. Ợbàtálá é conhecido por ter crianças de seis dedos na mão. A criança que se enrola em um saco (oke) é também um exemplo de criança que pertence a Ợbàtálá. Se qualquer um dos devotos de Ợbàtálá beber vinho de palma, ele ficara adoentado e vulnerável. Toda vez que Ợbàtálá aceita o sacrifício, os devotos regozijam-se dizendo E e e e pa!
Esta é uma forma de cumprimentar Ợbàtálá e de aclamá-lo.

Ifayemi Elebuibon
Ọșogbo, Estado de Oyo, Nigéria

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